Carinho
- Izabella Cristo
- 12 de nov. de 2020
- 2 min de leitura

“Caínhu”
Virei para o lado da cama. Vi meu filho de um ano e dois meses engatinhando em minha direção, sob o olhar atento do pai.
Ele, então, logo pulou em cima de mim e repetiu.
“Caínhu”
Meu filho hoje aprendeu a falar carinho.
Isso porque noite passada ele estava com um pouco de febre e mal estar e fiquei fazendo “caínhu” e cafuné na cabeça dele até acalmar o choro e calor.
“Caínhu”
Depois de uma semana estressante, daquelas que testa todos os limites de paciência e perseverança, ouvir essa palavra, mesmo torta, foi de preencher a alma.
Porque os filhos são assim, vaga lumes. Zunem aos ouvidos. Às vezes fazem barulho, picam, somem, mas de repente, quando menos se espera, eles te dão luz.
Ele ainda não sabe falar mamãe. Nem papai. Nem vovó. Nem o nome da babá.
Mas ele sabe falar carinho.
Meu filho aprendeu carinho, antes mesmo de “mamãe”.
Aliás, desisti de cara de qualquer competição: a primeira palavra dele foi “Gato”.
Se eu fosse uma mãe mais egocêntrica, talvez ficasse chateada.
Talvez ficasse enchendo o saco dele e ensinando repetidamente (sim porque filhos nesta idade aprendem o que a gente ensina), fale “mamãe”, ou não vai ter sobremesa.
Talvez quisesse centrar a atenção do meu filho em mim. Guardar ele para sempre sob minhas asas.
Não dá.
Não dá porque eu nunca conseguirei ser esse tipo de mãe. Respeito cada uma de nós. Só não combina comigo.
Serei a pessoa mais importante do mundo dele por um bom tempo, mas não serei eterna.
Uma hora os filhos se vão. Se não forem, seremos nós a deixá-los neste mundo.
Não quero guardar meu filho.
Ele é lindo.
Quero repartir. Compartilhá-lo com o mundo. Quando ele está com outras pessoas, saio de cena, viro coadjuvante. Deixo rolar.
Quero que ele viva e conviva com as outras pessoas ao máximo. Pense agora na dificuldade de se fazer isso em meio a uma pandemia que exige distanciamento social.
Não quero guardar o meu filho.
Talvez quisesse guardar esses momentos em caixinhas.
No fundo fico extremamente feliz que ele aprendeu a falar carinho.
Isso é revelador.
Revela que se ele aprendeu o que é carinho é porque ensinamos.
Eu ensinei.
Meu filho já experimentou o amor.
Antes mesmo de saber quem são as pessoas na vida dele, meu filho já sabe o que é um dos sentimentos mais nobres da existência.
Eu ensinei.
Portanto, acho que estou seguindo o caminho certo, embora na maternidade sempre exista muita oposição.
“Caínhu”
Meu filho sabe o que é dar e receber amor.
Peguei ele num amasso forte. Brincamos na cama e depois levantamos para tomar café. Depois o pai o pega para brincar na sala.
“Caínhu”
Meu filho faz carinho no gato.
E na minha alma também.
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