Mais que 10 minutos

Menino, também não te prometo nada.

Já tens mais que 10 minutos. Já tens mais que um ano de idade, mas não. Não te prometo nada.

És bonito. Eu sei. A vida te reservou uma beleza exterior que eu não tenho. Algumas coisas para ti serão mais fáceis. Terás sorte se não puxar esse nariz adunco que eu carrego.

A vida, entretanto, não é toda bela. Nem feia. A vida continua sendo vida, do jeito que ela é. Nada mudou desde os 10 minutos.

Aqui da janela desse apartamento, no qual estamos trancafiados, o mundo de hoje não promete nada de bom. Está tudo um caos. As pessoas agora usam máscaras de verdade, além das máscaras antigas que já cobriam suas verdades.

Se o mundo já não promete grande coisa, quem sou eu para remendar? Quem sou eu para te fazer acreditar?

Nada posso te garantir. Posso até te dar muita, ou pouca coisa. Posso te dar coisa alguma. Não sei ao certo.

Eu vou te dar o meu melhor, mesmo sabendo que isto pode não ser o suficiente. Pode ser que falte coisa, que sobre um pouco, que não faça diferença.

Pode ser que tudo que eu te dê seja para adquirires outra coisa. O futuro dirá.

Não pegastes o que sou por fora, ainda bem, mas se pegares o que eu carrego aqui dentro, vais te dar bem. Não te garanto a felicidade, menino. Nada posso te dar a não ser a minha estrela. Minha estrela partida, não em dois mas em um milhão de pedaços.

Se pegares a estrela, se tiveres ela no coração, a vida será mais do que bela.

Será o suficiente.


*Baseado na crônica Dez minutos de idade - Fernando Sabino


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